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domingo, 25 de outubro de 2015

Golpistas dominam a internet

Nathana Simões
Da redação
A Divisão de Investigações e Operações Especiais (Dioe) da Polícia Civil está de olho em estelionatários que usam classificados online para fazer vítimas. Os golpistas apresentam ofertas que parecem vantajosas, com preços bem menores do que os normalmente encontrados no mercado. A “pegadinha” é que o bem ou serviço anunciado não existe, e quando a vítima descobre já é tarde para reaver o dinheiro gasto.
O golpe é simples e já fez várias vítimas. Carros e telefones celulares estão entre os itens mais oferecidos na internet pelos criminosos. Os preços baixos ou as formas de pagamento facilitadas atraem compradores, que são induzidos a pagar parte do valor antecipadamente. O falso vendedor promete cobrar a segunda parcela apenas quando o produto for recebido, mas antes de a transação ser finalizada ele some com o dinheiro da entrada e não deixa pistas.
O servidor público Leonan Souza caiu nesse golpe. Ele pesquisava carros usados por meio de um aplicativo de celular quando encontrou uma proposta tentadora. Depois de dar uma entrada de R$ 15 mil, ele assumiria as parcelas de R$ 1,2 mil no financiamento de uma picape modelo 2014. O problema era que o proprietário do veículo residia no município de Prainha e dizia que não tinha condições financeiras para enviar o veículo de balsa até Belém. A vítima aceitou pagar R$ 1 mil pelo transporte. No dia seguinte ao depósito bancário, o anúncio foi retirado e o telefone, que durante dias havia sido usado pelo golpista para fazer a negociação, estava desligado.
O delegado Neyvaldo Silva, diretor da Dioe, conta que uma vítima no Pará já perdeu R$ 70 mil nesse tipo de negociação. “O único consolo para as pessoas é que todo mundo cai, até policiais já caíram no golpe. Há aquele momento de cegueira diante da proposta tentadora, e as pessoas acabam depositando valores em contas que não sabem a procedência. E quando descobre que não existe o bem, aquele carro, eletrodomésticos, por exemplo, é tarde demais. Mas a polícia tem desbaratado quadrilhas especializadas nesse tipo de crime”, afirma.
Há casos em que revendedoras reais de carros são usadas em anúncios falsos. As propostas geralmente são de vendedores que residem no interior do Estado e é preciso estar atento. “O site mais famoso e usado é o OLX. O site não tem um crivo, porque quem anuncia é quem é responsável. O melhor remédio é a prevenção, porque depois que acontece o fato, para recuperar (o dinheiro) é impossível. A recomendação é se certificar sempre sobre os dados apresentados, não acreditar em facilidades. Veículo que vale R$ 50 mil ofertam por apenas R$ 30 mil, celulares modernos e caros por menos da metade do preço original. Essa desproporção de valor tem que desconfiar. Se for comprar um produto de São Paulo, pedir para alguém se certificar no local sobre as condições é o ideal. Na dúvida, não adquira. O caso mais comum é de produtos que a pessoa paga uma parte do bem, mas ele nunca chega ao destinatário”, explica Neyvaldo Silva.
O delegado destaca que os compradores precisam ter atenção no momento de fazer um depósito bancário em nome de pessoas que nunca viram. Geralmente, os golpistas utilizam documentos falsos para abrir contas. Há casos em que os celulares usados nas negociações estão dentro de penitenciárias.
“Anúncios de carros são os mais comuns”, afirma delegado
O delegado Neyvaldo Silva diz que já recebeu inúmeras denúncias de vítimas de golpes pela internet. “Trabalho há mais de 20 anos investigando esse tipo de crime e posso dizer que em muitos casos o estelionato causa um trauma mais grave do que quando a pessoa é vítima de roubo com o uso de arma, pois há pessoas que perdem um dinheiro que foi guardado em uma vida inteira. Uma jovem veio aqui e disse que iria se casar e comprou pela internet os eletrodomésticos. Os objetos nunca chegaram. É um trauma muito grande, porque as pessoas ficam envergonhadas, têm a sua inteligência ferida. Advogados, policiais, todo tipo de pessoa já caiu nesse tipo de golpe”, afirma.
Silva explica que há três fases do golpe: primeiro o criminoso escolhe a vítima, depois tenta ganhar a confiança dela e, por fim, desperta o interesse e a cobiça. “Eles têm uma boa conversa, conseguem enganar e, depois de ganhar a confiança, chegamos ao momento em que a pessoa fica cega. Não vê a possibilidade de golpe porque já foi seduzida pela possibilidade de adquirir um bem de forma vantajosa. A última fase é a fuga, quando o criminoso desaparece. Agora se a pessoa desconfiar, basta isso, e ela estará com 90% de chance de não cair, porque ela duvidou”, afirma o delegado.
O diretor da Dioe conta que há investigações em andamento. Em julho, a Polícia Civil apresentou dez pessoas presas sob acusação de integrar uma quadrilha que aplicava golpes pela internet. Os homens foram presos em Pernambuco e na Bahia, acusados de integrar uma organização criminosa interestadual responsável por enganar pelo menos 100 pessoas em todo o País, por meio de anúncios falsos de venda de carros pela internet. O golpe pode ter rendido mais de R$ 1 milhão ao bando.
As investigações revelaram que pelo menos 100 contas bancárias foram utilizadas pela organização criminosa para receber o dinheiro depositado pelas vítimas. Na maioria dos casos tratava-se da entrada pela compra de carros que não existiam. Os delegados Bruno Brasil e Augusto Damasceno, de Capanema, e Fernando Rocha, do Núcleo de Inteligência Policial, da Polícia Civil, estiveram à frente da operação “Estrela”, iniciada em novembro do ano passado. “Há todo tipo de golpe, mas, atualmente, os anúncios de carros são os mais comuns. Quando identificados, os acusados respondem por estelionato, e se comprovar a participação de mais pessoas, há também o crime de associação criminosa”, afirma Neyvaldo Silva. (Pararijos NEWS)