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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O "gênio" de André Esteves na Petrobras


André Esteves, CEO do banco BTG Pactual, disse estar orgulhoso com resultados Não é à toa que o senador Delcídio Amaral, preso ontem por tentar atrapalhar o trabalho da Justiça na Operação Lava Jato, chamou o banqueiro André Esteves (foto) de “gênio” nas gravações usadas para justificar sua prisão. Esteves sempre foi considerado um prodígio dos negócios. Ambicioso, hiper-ativo, conseguiu erguer um império por meio de aquisições e tacadas certeiras em vários setores –estacionamentos, shopping centers, drogarias, construção civil, saúde e, naturalmente, finanças (um exemplo foi a compra do banco Pan-americano).

Muitas das manobras de Esteves no mercado financeiro já foram questionadas e não é raro que venham à tona acusações de uso de informação privilegiada ou comportamento discutível. Também é verdade que nem todos os negócios fechados por Esteves foram bem-sucedidos. No conjunto, contudo, o resultado é impressionante. O BTG Pactual tornou-se um dos maiores bancos de investimento do país, com patrimônio líquido de R$ 22,1 bilhões e ativos de R$ 652,5 bilhões sob sua gestão, segundo dados divulgados para o terceiro trimestre deste ano.  Numa área, porém, as investidas de Esteves têm sistematicamente dado errado: seus negócios com a Petrobras. Pelo menos três deles já levantaram controvérsia – e todos trouxeram se não prejuízo, no mínimo problemas ao BTG Pactual.

O negócio que está na origem da prisão de Esteves ontem nem mesmo foi fechado pelo banco, mas por uma empresa de Esteves e alguns acionistas, a BTG Alpha. De acordo com um depoimento do doleiro Alberto Yousseff, prestado em novembro do ano passado como parte de sua delação premiada, a turma de Esteves pagou R$ 6 milhões em propinas ao senador Fernando Collor de Mello para fechar um contrato de R$ 122 milhões com BR Distribuidora. Pelo contrato, a BR se tornaria fornecedora exclusiva e bandeira dos 118 postos de gasolina mantidos pela DVBR, uma sociedade de 2009 da tal BTG Alpha com o empresário Carlos Santiago, que andava mal das pernas e depois teve de ser desfeita com a venda dos postos. Santiago era um nome polêmico, já acusado de adulteração de combustível pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Mas esse nem é o negócio que mais prejuízo trouxe a Esteves. Ele empalidece diante do bilhão que foi pelo ralo na Sete Brasil, que o próprio Esteves já classificou como “um super-fiasco”.  A Sete foi aquela empresa criada sob os auspícios so ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para produzir no Brasil as sondas de exploração de petróleo da Petrobras. Ao todo, seus acionistas – além do BTG, os bancos Bradesco e Santander e os fundos de pensão Previ, Petros, Funcef e Valia – puseram R$ 8,3 bilhões no negócio. Em sua delação premiada, o ex-executivo da Petrobras Pedro Barusco contou como a Sete venceu de modo fraudulento a licitação para a construção das sondas de exploração do pré-sal e distribuía propinas aos montes. Hoje, amarga uma dívida estimada em R$ 10 bilhões. Só o BTG tem uma exposição de R$ 1 bilhão no negócio e já reconheceu em balanço a perda de R$ 280 milhões.

O maior e mais ambicioso negócio de Esteves com a Petrobras ainda está em andamento. Trata-se da sociedade firmada pelo BTG com a estatal para explorar todos os ativos de petróleo da empresa na África. Atuando como uma espécie de “BNDES privado”, o BTG decidiu em 2013 participar de uma operação que uniria os poços explorados em Angola, Benin, Gabão, Líbia, Namíbia, Nigéria e Tanzânia numa única empresa, apelidada na ocasião de Petroáfrica (o nome oficial acabou sendo PO&G). Entre 2003 e 2010, a Petrobras investiu algo como US$ 4 bilhões no continente. A iniciativa era parte da estratégia do ex-presidente Lula para ampliar os negócios do Brasil no continente – em 2008, ele viajou a Gana acompanhado de ninguém menos que o empresário José Carlos Bumlai, também preso esta semana pela Lava Jato.

A Petrobras precisava de mais capital para fazer andar seus negócios africanos. O único investimento promissor, cujo resultado era inequívoco, estava na Nigéria. Os demais precisavam do dinheiro para entrar no azul e depois ser vendidos. Em junho de 2013, o BTG pagou R$ 1,5 bilhão por metade da empresa que reunia os ativos da Petrobras na África. O valor da operação foi questionado. Embora o BTG sempre tenha defendido que foram praticados “valores de mercado”, as avaliações para a empresa toda chegavam a R$ 4 bilhões. A ideia era reestruturar e desfazer-se aos poucos dos ativos que não davam resultado. A acusação que pesa contra o BTG é ter recebido um “desconto” para ajudar aceitar financiar a estratégia desastrada de expansão africana da Petrobras. Petrobras e BTG negam o desastre. Argumentam que o negócio como um todo foi lucrativo e gerou dividendos aos acionistas

A situação de Esteves não supreendeu quem acompanha de perto seu estilo agressivo. Não se sabe se aquilo que o senador Delcídio diz na gravação tem algum fundo de verdade, ou se realmente ambos encontraram-se apenas para discutir a situação da economia e a CMPF, como Esteves deu a entender em seu depoimento de ontem, de acordo com notícia divulgada pela revista Época. A única surpresa é Esteves ter sido preso sob a acusação de tentar acobertar a propina em um negócio mixuruca de postos de gasolina – quando as relações de seu banco com a Petrobras têm uma dimensão muito maior. Tentei falar ontem com o BTG. Eles se limitaram a me enviar um comunicado que afirma: “O BTG Pactual esclarece que está à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários e vai colaborar com as investigações”. (Pararijos NEWS)