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domingo, 10 de janeiro de 2016

El Chapo caiu por tentar rodar em plena fuga um filme sobre sua vida

El Chapo acreditou na própria lenda. Essa foi sua perdição. Escondido em seu feudo de Sinaloa, Joaquín Guzmán Loera, o narcotraficante mais procurado do planeta, deu vazão à sua megalomania e moveu os pauzinhos para pôr em andamento um filme sobre a própria vida. Na clandestinidade, seus advogados contataram atrizes e produtores e provocaram tamanho alvoroço que o surpreendente capricho do líder do cartel de Sinaloa – a quem os relatórios de psicólogos descrevem como um ser atormentado e com delírios de grandeza – foi notado pelos investigadores que estavam em seu encalço. Não demorou muito para que a pista conduzisse ao paradeiro do foragido e permitisse a primeira tentativa de captura. Foi o princípio do fim. É o que revelou a procuradora-geral do México, Arely Gómez González, ao reconstituir os passos que permitiram a detenção na sexta-feira do lendário chefão mexicano. Esta é a história.
A investigação teve como ponto de partida a desarticulação da célula que organizou a construção do túnel de 1.500 metros pelo qual El Chapo fugiu em 11 de julho do presídio de segurança máxima de El Altiplano. Nesse grupo figuravam o cunhado de Guzmán Loera, um de seus advogados, um operador financeiro e, sobretudo, o chefe do esquema de túneis do cartel. Após a captura deles, os investigadores conseguiram rastrear os movimentos do narcotraficante depois de escapar da prisão. Primeiro ele foi levado de carro até o município de San Juan del Río (Querétaro), a 220 quilômetros de distância, e em seguida trasladado para um avião Cessna, em companhia do cunhado, até o chamado Triângulo Dourado, uma zona agreste situada entre Sinaloa, Chihuahua e Durango. Ali, em plena Sierra Madre, seu rastro se perdia. El Chapo havia mergulhado em seu feudo. Um território onde era dono e senhor, e em que muito poucos se atreveriam a delatá-lo.

Nessa obscuridade, o descobrimento de que o narcotraficante estava empenhado em realizar um filme autobiográfico acendeu uma luz. O fio condutor, através dos advogados e seus interlocutores, conduziu até um rancho no esquecido município de Pueblo Nuevo (Durango). Era o final de outubro. Haviam transcorrido três meses da fuga e a crise aberta pelo escândalo continuava a se expandir. Os comandos da Marinha agiram. Mas a operação fracassou. El Chapo, embora a duras penas, conseguiu romper o cerco. Em seu relato, as forças de segurança sustentam que um helicóptero militar descobriu o narcotraficante em plena corrida, mas decidiu não disparar ao ver que estava acompanhado de duas mulheres e uma menina.
Depois dessa fuga, Guzmán Loera adentrou ainda mais a Sierra Madre, reduziu seu círculo de segurança e limitou suas comunicações. Seus rastros mais uma vez se perderam na imensidão do noroeste mexicano. Mas as autoridades não demorariam para virar a mesa.
Farto da vida na montanha, El Chapo decidiu esconder-se em uma área urbana. Sob suas ordens, um de seus homens, vigiado por ser membro do aparato de túneis do cartel, começou a preparar e climatizar casas em Sinaloa, uma delas em Los Mochis, a terceira cidade do Estado. Os alarmes soaram. O imóvel foi submetido a vigilância. Na quinta-feira El Chapo chegou. Na madrugada de sexta-feira as unidades da Marinha iniciaram o ataque.
Guzmán Loera não estava só. Estava acompanhado por Iván Gastélum Ávila, El Cholo, um dos mais sanguinários matadores do cartel de Sinaloa, transformado agora em chefe da segurança de El Chapo. El Cholo ordenou a seus homens que o protegessem na fuga. Cinco deles caíram sob o fogo dos militares, outros seis foram presos.
Enquanto isso, El Chapo e sua escolta escapavam pelo sistema de esgoto. Guzmán Loera já havia recorrido a essa via em 2014, quando, cercado pela Marinha em uma casa de Culiacán, conseguiu fugir por um túnel que desembocava no sistema de dutos pluviais. Mas desta vez o estratagema não deu certo. Os soldados o esperavam no subsolo. Diante da presença deles, El Chapo e seu chefe de segurança decidiram sair à superfície. Levantaram um tampo dos bueiros e, já na rua, correram para roubar um carro. Não chegaram muito longe. Na estrada Los Mochis-Navajoa foram interceptados. Ambos se renderam sem disparar. E rapidamente foram levados pela equipe da Marinha a um hotel, à espera de reforços. Assim terminou a fuga de El Chapo. Nessa mesma noite, depois de ser exibido diante dos jornalistas, com o rosto um pouco mais gordo e bigode, o líder do cartel de Sinaloa foi conduzido em helicóptero à prisão de segurança máxima de El Altiplano. A mesma da qual escapou em julho. A história volta a começar. (Pararijo
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